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Café em Grão

Por Utopia: Já era amor antes de ser...

30.11.16

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“Não me lembro mais qual foi nosso começo. Sei que não começamos pelo começo. Já era amor antes de ser” - Clarice Lispector

 

- Inspira-te em mim. – dizia ele ao ver-me sentada no sofá com uma expressão de quem já não conseguia escrever uma única palavra que soasse minimamente apetecível.

Desviei o meu olhar para ele e sorri. Sorriu-me de volta porque sabia.

Se cada um tivesse a sorte de saber onde mora a sua inspiração, o sucesso estaria mais conquistável, mais acessível, mais possível. Nómada como é, não temos como alcança-la tão facilmente dentro de nós. Até que ele surge.

O amor vem sem avisar. Não bate à porta nem nos pede licença. Encontra uma frincha na janela que deixamos aberta e entra. Acomoda-se como se já fosse da casa e nós permitimos. A lareira já está acesa, a música a tocar e tudo no seu devido lugar para o receber.

Mas quando nos esquecemos da janela aberta enquanto tomamos rédeas da nossa vida e o amor aparece, ele não entra de imediato. Observa. Detém-se por ver que não é urgente nem esperado. Pára e consta que não há lareira acesa, nem música e que tudo está virado do avesso. Em contrapartida, há livros espalhados no chão, objetivos pendurados nas paredes e pressa. Há pressa em tudo porque não há calma em chegar.

Se, então, o amor entrar é para ser o conforto que não o esperava quando espreitou pela janela. É para incentivar a pressa e segurar as rédeas que antes só estavam seguras pelas nossas mãos.

Esse amor, raro e exclusivo, inspira-nos. Não só por ser tão puro, mas por fazer vir ao de cima o melhor de nós.

- Mostra-me – pediu-me, envolvendo os seus braços à minha volta, ao ver a fluidez do ritmo a que escrevia.

Encostou a cara à minha. Cobri o computador prometendo que mais tarde o faria. Aceitou e ao virar costas, voltei a olha-lo. Dava por mim muitas vezes a fazê-lo. Era como se de repente aquela janela fosse a nossa sorte acumulada, o esquecimento que voltaríamos a esquecer e o momento que viveríamos vezes sem conta como se fosse a primeira vez.

Esse amor espreitou pela janela e viu-me. Com todos os meus defeitos e feitos e entrou. E sem pedir começou a limar os defeitos e fazer dos feitos vitórias partilhadas. E eu deixei ao sentir que era para ser e que já era antes de chegar.

Não me deu certezas de que ficaria para sempre nem tão pouco que tomaria tamanha proporção que cresce de dia para dia. Mas nas entrelinhas a história é escrita. Já não há toque pelo qual mais anseie, voz em que tanto confie nem tanto de mim que poria em jogo para o salvar.

Esse amor entrou na minha vida. Sei ao olhá-lo. O sorriso que nasce na chama de um beijo, a força que esmaga num abraço, o riso que eleva por ser tão natural, a mão que tanto conhece, a segurança que alisa o caminho, o incentivo que não me deixa desamparada.

Olhamo-nos e (con)sentimos. Há um elo que nunca se quebrará entre nós passe o tempo que passar, à velocidade que entender.

A inspiração está nesse elo e eu sabia que o amava, antes de o amar. Porque já sonhava com um amor assim.

 

Utopia

 

Chá de lúcia-lima acompanhado com o mais recente livro da Lesley Pease – Confia em mim.

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