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Café em Grão

Por Utopia: Escreve uma palavra

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O ambiente estava abafado entre aquelas quatro paredes já gastas de tantas confissões soltas de almas já perdidas ou até entregues. A janela encontrava-se fechada, nunca valeu o risco de deixar entrar brisas que pudessem eventualmente levar tudo aquilo que naquele espaço divagava. Havia quadros pendurados envolvidos em pó como se o aspecto de antigo criasse esperança de um futuro livre de nós na garganta e peso no coração de quem os admirava. Continham paisagens esbeltas que a maioria das pessoas apenas as imagina e acham impossível que existam. É raro, e infelizmente verdade, que consigam através de uma janela saber que para além dela existe um mundo cheio de impossíveis que todos podemos concretizar. A janela podia abrir-se a qualquer momento. Eles sabiam-no.
A sala apenas podia contar com a presença de dois corpos ligados por um fio de amor invisível, que libertava pequenas invejas em quem os olhava… tão distantes mas tão próximos.
Pouco sabiam do passado um do outro, e quando este se sobressaía, o mundo encolhia e o aperto permitia mil e uma tentativas de resguardo. Ele era a ponte dela em dias de tempestade, quando a casa não lhe era suficiente.
Em frente dos seus olhos encontrava-se uma folha branca por estrear e uma caneta nova, que quase podia jurar que tivesse sido guardada para aquele momento.

- Uma palavra.

Estendeu o braço e lentamente deslizou a folha sobre a mesa para mais perto das mãos dela transmitindo assim, uma sensação de segurança e de solução para os seus medos. Hesitou. Ainda que não visse qualquer importância que uma palavra poderia ter naquele momento, temia pelo poder que esta podia vir a ter nos seus sentimentos.
Olhou-a. Através das expressões na sua face conseguia aperceber-se do sabor agridoce de cada vez que esta olhava para a folha.
Pensou em dar-lhe a mão, mas conteve o movimento quando finalmente ela o encara.

- Uma palavra?

Perguntou-lhe, ainda que soubesse a resposta que lhe daria.

- Sim querida, uma palavra.

Pegou na caneta. Os seus dedos tremiam para além de todo o coração, como se aquele momento fosse decidir o vencedor de uma guerra vazia e submersa de propósitos. Sim, ela sabia que ninguém vence numa guerra. Talvez esse fosse o seu medo.
Quando o azul se realçou no branco, a sua caligrafia trocava linhas de atormento sobre o que até agora tinha adormecido.
Ele tentava sentir as letras, que ainda do avesso, lhe causavam impressões inexplicáveis que lhe percorriam todo o corpo. São aquelas sensações que nos fazem querer ir mais longe, mas a espera nos mata aos poucos, nos rói por dentro. A espera foi longa e ele sentiu um arrepio. Os olhos ficaram focados na folha. Imóvel. Quieto. Sem reacção.

Fantasmas foi a palavra.

Utopia.

Chá Preto bem quente com o livro “Confesso” de Colleen Hoover

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