Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Café em Grão

O bicho...

05.03.16

 


Corria o ano de 2013, finais de Junho, o dia estava lindo, bastante quente, combinamos uma tarde de praia que por sorte se estendeu até às 20h da noite! Mas que dia tão agradável, na companhia dos amigos.
Fazíamos planos, para um fim-de-semana daí a uns tempos e tu disseste logo que sim. Por vezes alheado da realidade, sempre estiveste disposto a estas aventuras, saídas da rotina.
Na semana seguinte juntamo-nos para festejar o meu aniversário e preparar o fim-de-semana que havíamos planeado e foi aí que sem ainda sabermos, tivemos o primeiro sinal que algo não estava bem… Pura e simplesmente tinhas-te esquecido que havia um fim-de-semana planeado. Estranho, muito estranho.
Continuamos com as nossas saídas, pensamos que se teria tratado de uma situação isolada, até que em Outubro do mesmo ano surges à nossa beira, com sintomas de que poderias estar com uma paralisia facial. Ficamos estupefactos a olhar para ti. Foi num jantar de aniversário este encontro, em surdina comentávamos uns com os outros o que se poderia estar a passar! Falamos com a tua esposa, que ainda não sabia ao certo, mas que devido a outros sintomas, não deveria ser paralisia. Ficamos assustados, enquanto tu descansavas no sofá. Pouco quiseste falar connosco, pois a fala arrastava-se e nós não percebíamos muito bem. Sentimos-te em baixo.
A partir desse dia, a nossa preocupação aumentou, até que um mês depois, através da tua esposa surgiu a inevitável noticia, estavas com um tumor no cérebro. A biópsia tinha sido feita e o diagnóstico não deixaria margens para dúvidas para além de ter piorado em muito a tua situação…
Os teus amigos acompanharam-te neste momento menos bom, sempre com a esperança que houvesse salvação.
Um dia de cada vez…dizíamos nós!
Com o passar do tempo, a coordenação entre o que querias falar e o que realmente dizias deixou de fazer sentido, deixaste mesmo de falar. Os movimentos foram dimuinuindo e a cadeira de rodas foi a única solução. Meses mais tarde a visão faltou-te e a cama passou a ser o teu único refúgio.
Foi um ano e meio, quase sempre em volta de ti, no apoio à tua esposa, para que ambos não se sentissem sozinhos neste luta.
Nunca fomos os melhores amigos, mas lembro-me de brincarmos em miúdos, também dos tempos de escola, da cordialidade que sempre existiu entre a tua família e a minha.
Lembro-me perfeitamente do dia em que te apresentei a que viria ser a tua esposa, uma amiga minha de escola a quem devo muito do meu sucesso escolar. Foi na minha festa dos 21 anos que vos coloquei frente a frente, soube depois que nunca mais a largaste! Estive presente no vosso casamento em 2010, mas que cerimónia esplêndida! Tu, feliz, de violino na mão, tocando para a tua esposa… Lembro-me disso tudo e recordo com saudade.
A luta contra o bicho, revelou-se inglória e nos últimos dias, só mesmo a morfina te acalmavam.
Vou para sempre lembrar amigo o sorriso com que nos recebias, podias não ver, não falar, mas o sorriso estava lá! Sempre notamos em ti que estarias bem, em paz, ou pelo menos tentaste sempre mostrar-nos isso, talvez para não nos preocupares mais, talvez porque a medicação te deixava assim, bem-disposto.
Passou um ano!
Com a tua partida, muita coisa mudou, dando-nos a entender que a vida tem mesmo de continuar e de ser vivida ao máximo.
Pois existem bichos maus que podem aparecer de repente e sem contarmos, a ti assim foi e em pouco mais de um ano e meio roubou-te de nós. 
Ainda assim deste-nos uma lição, não lhe mostraste medo, sorriste para ele, talvez por isso tenhas conseguido aguentar um pouco mais para te despedires de nós serenamente.
Que os teus quase 36 anos de vida tenham sido felizes...
Penso muito em ti rapaz…
Com saudade.

Carlos

7 comentários

Comentar post