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Café em Grão

Histórias de uma gata: O amor é isto? 4ª e última parte

Fausto não respondeu e foi embora. Talvez eu tenha sido estúpida. Mas, confesso, fiquei roída de ciúmes por os ver a conversar sem me terem chamado. 
Desci do parapeito da janela e fui ter com a minha prima que já se tinha enroscado no ninho, querendo dar a entender que dormia profundamente.
-Conchita que estavam vocês a conversar?
-Nada…
-Vá, não fujas á resposta, quero saber o que tanto conversaram e levou-te a não me chamares?!
-Nada Yra, nada! Isso são ciúmes? Tens de falar com ele…não é comigo!
Continuei insatisfeita com as respostas
-Ou falas, ou estamos com problemas sérios!
Conchita desenrosca-se e levanta-se em posição de defesa!
-Vais atacar-me Yra?
Não pensei em mais nada, furiosa como estava saltei-lhe em cima. Exigia respostas, às quais Fausto não respondeu e Conchita também estava a evitar contar. Teria eu motivos para estar com esta ciumeira?
Sempre fui mais forte do que Conchita e num ápice imobilizei-a…
-E agora vais contar ou não?
-Yra larga-me!
-Fala de uma vez…
-O Fausto estava a falar-me dos sonhos dele…
-Como assim?
Em tantas conversas que já tivemos ele nunca me falou de sonhos, apenas dos planos que fazia para nós dois.
-Ele falou-me que gostava de treinar, poder tornar-se o gato das botas cá da zona!
-Ah ah ah ah o gato das botas? Isso só nos filmes …
-Pois mas foi isso que ele me contou assim que partilhei com ele o meu sonho em aprender a dançar sevilhanas.
Bem, afinal o Fausto não me tinha contado tudo da conversa, porque será que me escondera esse sonho dele?
Bonito, uma quer aprender a dançar o outro a defender-se como o gato das botas, esta gente anda a sonhar alto demais.
No dia seguinte confrontei-o com estas afirmações da Conchita:
-É verdade Fausto?
-É sim…
-Porque nunca me contaste?
-Pensei que te fosses rir de mim!
-Ah e ela não iria rir? Até parece que não me conheces, não confias em mim…
-Não é isso, desculpa se te magoei.
-Desiludiste-me, apenas isso! Mais depressa partilhaste com uma estranha os teus sonhos do que comigo.
-Estou perdoado?
-Vou pensar…
Não conseguia estar chateada com ele, o seu sorriso, o brilho do seu pelo, todo ele me encantava e verdade, eu estava mesmo apaixonada por ele.
Já estávamos na segunda semana de estadia da Conchita cá por casa e ouvi dizer que mais dois dias e os donos a viriam buscar. Já estava cheia de a aturar e toda aquela quezília por causa do Fausto afastou-nos um pouco. Mas mesmo assim, em jeito de despedida combinamos que na véspera da partida da minha prima, haveria lugar a uma tertúlia à janela.
O Fausto com a elegância que o caracteriza apareceu à hora marcada com duas rosas vermelhas e vistosas, ofereceu uma a cada uma de nós.
- Yra, meu amor, esta é para ti, continuará a ser a nossa flor, hoje e sempre trarei uma para te lembrar do meu sentimento por ti. Espera-nos um futuro risonho, acredita.
- Oh Fausto, não digas essas coisas que fico sem jeito aqui em frente à minha prima.
- Conchita esta rosa é para ti, gostei muito de te conhecer, espero que corras atrás dos teus sonhos e que tenhas uma boa viagem de volta a casa.
No fim piscou o olho a Conchita, confesso que mesmo após a declaração de amor que me fez, ainda ficou em mim uma ponta de ciúmes pelo que disse à minha prima, mas no dia seguinte ela iria embora e aí teria o Fausto só para mim.
A conversa durou um bom par de horas, os meus donos não estavam e conversamos imenso. Senti uma certa proximidade entre eles os dois, naturalmente a presença assídua da Conchita fez com que se criassem laços de amizade. Entretanto começou a chover, eles despediram-se, combinei com o Fausto encontrarmo-nos no dia seguinte, haviam conversas pendentes, não tinha esquecido que antes da minha prima chegar ele tinha-me pedido para fugir com ele e eu já tinha respostas paral lhe dar.
-Até amanhã amor.
-Até amanhã linda. Boa viagem Conchita.
Descemos do parapeito e fomos as duas para o ninho enquanto o Fausto também regressou a casa apressado para não molhar aquele pêlo sedoso.
Tentei esquecer a guerra que eu e a minha prima travamos e estivemos ali deitadas a recordar os tempos mais antigos, os momentos que passamos no canil municipal, a adopção e todas as férias que já tínhamos passado juntas. Entretanto a Conchita adormeceu e eu deixei-me dormir também.
No fundo, iria ter saudades da minha prima, mas perante os últimos acontecimentos até era um certo alivio perceber que ela iria embora. Assim tinha mais tempo para o Fausto e também já podia dar um rumo à nossa relação.
Sim depois da última conversa a sós que tivemos resolvi aceitar o pedido e queria fugir com ele. Nessa mesma noite sonhei com ele, nós dois, lado a lado, por aí, por esses campos verdejantes.
Pela manhã, acordo com o meu dono a chamar pela Conchita, estava quase na hora de a virem buscar. Abri os olhos e percebi que ela não estava ao meu lado. Levantei-me e percebi que os meus donos estavam à procura dela pela casa toda e que não a encontravam. Percebi que algo de errado se passava.
Na clarabóia do prédio, ouvi a chuva a cair, não tinha parado desde ontem. Também eu procurei Conchita pela casa sem sucesso. Entretanto apercebo-me da voz dela, vinda lá de fora.
-Despacha-te, atrasaste-te tanto!
A janela da cozinha estava aberta e apercebi-me que a Conchita tinha saltado e que o Fausto estava com ela. Naquele instante tremi, na minha cabeça mil e um pensamentos.
-Fausto! – Chamei eu.
-Adeus Yra…
-Fausto o que estás a fazer?
-Desculpa Yra, mas vou embora com a Conchita.
-Como és tu capaz de me fazer isso?
-Não quiseste fugir comigo! A tua prima aceitou…
Nisso Conchita vira-se para trás:
-Perdeste Yra…
Não podia acreditar no que me estava a acontecer, fui enganada pelos dois. Como pude ser tão parva?
-Porquê Fausto?
-Vou para Sevilha com ela, vou aprender a arte do gato das botas.
-Mas Fausto, não te deixes enganar, isso não é possível!
-É sim prima e eu vou com ele realizar o meu sonho, a dança das sevilhanas e depois vou ser feliz com ele, vamos casar e ter muitos filhinhos.
-Cala-te estúpida! – Atirei eu.
- Não fiques assim Yra, tu não foste enganada, o enganado fui eu! – Acrescentou o Fausto.
-Mas porquê?
-Tu nunca irias fugir comigo e depois pelo que a tua prima me contou nunca irias poder dar-me filhos, estás seca, castraram-te…
Como foi ela capaz de tamanha traição, algo tão íntimo, como teve coragem de me trair? E ele, porque me estava a falar assim? Onde estava o gato doce, de voz sedutora? Toda eu tremi, o meu coração demasiado apertadinho, estava a experimentar sentimentos que nunca tinha sentido. Dor, mágoa, angustia, desilusão…não podia ser, não queria que fosse assim!
Nisso os meus donos abeiraram-se da janela e perceberam que a Conchita estava no exterior do prédio.
Ainda chamaram por ela. Mas eles quando os viram correram rua acima, desaparecendo por entre a falta de visibilidade que a intensa chuva estava a provocar. Chovia torrencialmente.
Os meus donos ficaram estupefactos pelo que acabara de acontecer e não sabiam como iriam avisar os amigos que a Conchita tinha fugido.

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Enquanto eles pegavam no telemóvel, recolhi-me no meu ninho e chorei, chorei, chorei desalmadamente horas a fio.
Como pude ser tão parva? Como me deixei enganar? Provavelmente não foi apenas uma conversa a dois, mas sim várias enquanto eu dormia. Senão, não teriam hipóteses de combinar fugir! Doía-me o coração tamanha a desilusão.
Os donos dela chegaram, umas horas mais tarde, tinham ficado presos na auto-estrada devido ao mau tempo que se fazia sentir. Resolveram ir à procura dela… Espero que não a encontrem, não quero ter mais que olhar para a cara deles.
A chuva continuava a cair torrencialmente. Dirigi-me à janela da cozinha e fiquei ali, deitada a olhar o vazio que a partida deles tinha deixado. Os campos em frente estavam cheios de água, que escorria com a terra para a estrada.
O trânsito estava caótico. Nada nem ninguém previu este tempo tempestuoso, mas que mesmo assim não superava a tempestade que se abatera em mim.
Nisso os donos dela, juntamente com os meus, surgem a pé com uma caixa de papelão que enfiam na mala do carro. “Com este tempo, com a fuga da Conchita, como tiveram cabeça de ir às compras!”, pensei eu!
Entraram em casa e de imediato apercebi-me do ambiente pesado e dos olhos marejados de lágrimas.
Mas o que terá acontecido?
Enrosquei-me nos pés dos meus donos!
- Oh Yra, a tua priminha morreu!!!
Fiquei sem reacção, perplexa com o que acabara de ouvir, não pode ser!
Com o desenrolar da conversa, percebi que o leito do rio galgou as margens e que ela tinha sido apanhada, tendo então morrido afogada. Foi encontrada numa das margens. Possivelmente Fausto tinha tido o mesmo destino, pois ouvi-os comentar a quantidade de animais que haviam perecido nesta tragédia.
Recolhi- me no meu ninho e mais uma vez não contive o choro, a raiva por tudo o que acontecera. Muita pena por terem morrido, mas no fundo um misto de sentimentos que também davam lugar ao sentido de vingança. Fugiram, traíram-me mas não foram longe.
Os dias foram passando, chorei muito com tudo isto, mas aos poucos as lágrimas foram secando.
As palavras que ouvi aquando da fuga ainda ecoam em meus ouvidos.
“Fugir, seca, castrada!”
A mágoa, essa, acompanhará os meus dias para sempre!
Um mês após a tragédia, apanhava uns raios de sol à janela e por entre os transeuntes vejo surgir Fausto.
Fiquei aflita por o ver, julgava-o morto. Tinha tido melhor sorte que Conchita.
O brilho dele já não era igual, ou a maneira como eu o via já não era mais a mesma.
Trazia uma rosa vermelha com ele, parou em frente ao prédio, como fazia de todas as vezes em que conversávamos. Apercebeu-se da minha presença.
-Yra?
Saltei do parapeito e refugiei-me no meu ninho. Não quero falar com ele.
Fiquei feliz por perceber que estava vivo, isso basta.
Acreditei uma só vez nele e não soube aproveitar a oportunidade.
Agora não quero ouvi-lo mais.
Porque para mim o amor não é isto!
Hoje, seis meses depois a mágoa ainda é enorme, percebo que iria fazer a maior asneira da minha vida se fugisse com ele.
Trairia eu a confiança dos meus donos que tão apaixonadamente cuidam de mim desde que me trouxeram do canil.
Não quero mais ninguém, não quero saber mais do amor nem da amizade dos gatos …apenas da dos meus donos.
O tempo encarregar-se-á de me devolver a paz.

Como referi na primeira parte desta história queria fazer um apelo, pedir a todos os donos de gatos como eu que nunca os abandonem, pois o perigo espreita em cada esquina e todos merecem experimentar o amor dado por vocês!

Porque para mim, o amor é isto, o amor dos meus donos!

FIM
Yra Patinhas Fofas

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