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Café em Grão

Histórias de uma gata: O amor é isto? 3ª Parte

04.10.15

Naquele momento, não aguentei mais. Levada pela emoção, desequilibrei-me, acabei prostrada no chão. Ali fiquei sem conseguir reagir.
-Yra, estás aí? Yra….

Os donos chegaram entretanto, já eu me tinha levantado. O Fausto apercebendo-se que já não estaria sozinha, seguiu caminho para casa.
“O Fausto quer namorar comigo!”, “O Fausto está apaixonado por mim!”
O Fausto não me saía da cabeça!
Esse foi o primeiro de muitos dias! No dia seguinte lá estava ele a chamar por mim, passávamos horas e horas a namorar, desculpem, a conversar. Contou-me toda a sua vida. Percebi que vinha de uma boa linhagem, os donos tiveram que pagar para o trazer para casa. Notava-se pelo pêlo que pertencíamos a raças diferentes. Acabei também por lhe falar de mim e notei que em nada o incomodou perceber que fui abandonada no canil da câmara quando era ainda bebé, juntamente como os meus irmãos. Não sou de raça, é verdade, mas o mais importante é que tive melhor sorte do que muitos e certo dia os meus donos passaram lá e gostaram de mim. Acabaram por me adoptar.
Mas isso não interessava para nada quando existiam dois corações a bater apaixonados um pelo outro.

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Certo dia, durante uma das inúmeras conversas que tínhamos, surpreendeu-me:

- Yra, namoramos há algum tempo, sinto que está na hora de fazer com que a nossa relação evolua…
Fiquei perplexa com estas palavras, contudo não estava a perceber onde ele queria chegar!
- Mas o que queres dizer com isso amor? – Carinhosamente tratava-o assim.
- Queres fugir comigo?
- Mas…
- Já percebi, não queres!
- Não é isso, apanhaste-me desprevenida!
- Então?
- É claro que quero, mas não achas cedo demais?
- Sim talvez tenhas razão, mas quanto mais tempo vamos ter que esperar?!
Nisso o carro dos meus donos surge na curva, apercebendo-se disso, Fausto vai embora.
- Até amanhã amor…
- Até amanhã. – Respondeu-me Fausto, mas senti a voz dele esquisito, decepcionado talvez!
Fausto não percebia esta minha hesitação, apesar de estarmos a viver esta relação intensamente, não achava ter passado tempo suficiente para dar um passo tão importante.
Os meus donos, entretanto estacionam o carro frente ao prédio, apercebem-se da minha presença à janela e riem-se…
- Yra, tens companhia.
Não estava a perceber o que eles estavam a querer dizer, entretanto vejo-os a tirar uma transportadora da parte superiora da mala.
- Conchita! Prima Conchita!
Reconheci logo quem era a companhia, fiquei muito feliz. Conheço-a desde pequena, partilhava-mos a mesma jaula do canil. Quando fui adoptada ela ficou muito triste por não ter tido igual sorte. No entanto, quando os meus donos, uma semana após eu ter vindo cá para casa, receberam esses amigos para jantar, os mesmos ficaram encantados comigo! E se também estavam a pensar em adoptar um animal de estimação, depois de me verem, tomaram a decisão de avançar com a ideia. Coincidência, foi terem escolhido a Conchita!
Desde aí são muitas as vezes que ela vem cá para casa, deve coincidir com as férias deles.
- Conchita, que alegria!
-Oh Yra que saudades! Como estás?
-Bem e tu?
- Estou óptima…
Realmente está em muito boa forma, aliás Conchita sempre foi muito bonita. Já em pequena era a rainha do canil. De pêlo sedoso, olhar penetrante, muito amiga e sonhadora.
- Quanto tempo vais cá ficar?
- Não sei bem, talvez duas semanas. Olha fico até quando eles resolverem vir buscar-me!
- Ainda bem… E então, os teus sonho? Ainda acreditas?
Conchita desde cedo sonhava fugir para Sevilha, tudo isto porque viu na televisão uma reportagem sobre as danças das sevilhanas e ficou vidrada naquilo. De verdade acreditava vir a ser uma profissional da dança. Sempre achei impossível, mas nunca lhe disse para não ficar aborrecida.
- Um dia Yra, um dia eu vou conseguir. Mas olha lá, quem era o gato que estava aqui à tua porta quando chegamos?
-Gato? Não vi ninguém…
- Yra, não sabes mentir e eu apercebi-me que vocês estariam a conversar.
Fui apanhada. Naquele momento não tinha mais por onde fugir. Fausto tinha ido embora quando eles chegaram, mas mesmo assim tinha sido apanhada!
-É o Fausto… - Acabei por responder envergonhada.
-Ah ah apanhei-te! Não vos vi a conversar, mas quando o vi a subir a rua apercebi-me no teu olhar que algo se passava ali.
- Oh! Sou muito parva…
- Vá fala-me lá desse Fausto!
Contei-lhe toda a história. Conchita era minha amiga, confiava nela e quando se proporcionou, acabei por lhe apresentar o Fausto!
- O que achaste do Fausto, Conchita?
- Muito bonito e percebe-se que está muito apaixonado por ti. Não merecias tanto…
-Desculpa?
- Nada, nada, é muito bonito.
Yra percebeu perfeitamente o que Conchita disse por entre os dentes, mas atribuiu aquele desabafo à mania da superioridade, defeito que sempre lhe assistiu. Talvez por ter sido sempre muito bajulada, ninguém era melhor do que ela.
Aqueles dias com a Conchita foram passando normalmente, o Fausto continuava a visitar-me todos os dias. Havia momentos de estarmos as duas à janela na conversa com ele! As horas corriam sem darmos por isso.
Um dia, já os meus donos estariam a dormir, enroscada no meu ninho, sinto que Conchita não está ao meu lado. Desconfiada levantei-me. Começo a ouvi-la a falar, mas muito baixinho, quase como a murmurar. Chego à cozinha e encontro-a à janela… Antes de saltar para o parapeito da janela, ainda a ouço falar de Sevilha. Do outro lado está Fausto.
-O que tanto se conversa por aqui?
-Nada Yra, nada… - diz Conchita.
-Ola amor como estás? – Acrescenta Fausto.
-Estavam a falar de Sevilha? – atirei eu, queria perceber o que se conversava.
Conchita salta para o chão e sai da cozinha.
- Estava a falar-me dos sonhos dela. Mas estás com ciúmes?
- Eu não, achas mesmo! Ou tenho razões para estar?
Fausto não respondeu e foi embora. Talvez eu tenha sido estúpida. Mas, confesso, fiquei roída de ciúmes por os ver a conversar sem me terem chamado.

(continua)
Yra Patinhas Fofas

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