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Café em Grão

Histórias de uma gata: O amor é isto? 2ª Parte

29.09.15

Os dias foram passando e não mais tive notícias dele.
“Será que o saco de pulgas o apanhou?”
Dia e noite a janela da cozinha passou a ser o meu ninho, o meu aconchego, passei horas acordada a olhar o vazio lá fora na esperança de voltar a ver aquele brilho que por momentos me havia cegado. Pelo meu pensamento desfilaram inúmeros desfechos para aquela corrida desigual entre o Fausto e o pulguento.
“Por onde andas Fausto?”
“Um sinal apenas, dá-me um sinal por favor!”

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Os meus donos estavam bastante preocupados, emagreci a olhos vistos, pudera, na ânsia de o rever, esquecia-me de comer.
Um dia resolveram fechar-me com eles na sala, colocaram-me o ninho junto ao sofá na esperança que me aconchegasse ali, ripostei de imediato e implorei para que me abrissem a porta. Não queria abandonar de maneira nenhuma a janela, a única e possível “porta” aberta entre mim e a recordação que guardava dele. Sentia-os um pouco perdidos por minha causa. Até que…
Duas semanas após ter conhecido e perdido o Fausto, os meus donos chegam do trabalho e trazem com eles a gaiola que apenas usam quando me levam a visitar a mulherzinha de bata branca…
“Não, não quero ir!”
“E se o Fausto aparece?”
Percebi de imediato que a única forma de os fazer desistir de uma possível ideia de me tirarem de casa seria comer algumas ervilhas do meu prato. Assim fiz…
Ainda tentaram pegar em mim para me levar, mas ouvi-os falar que esperariam pelo dia de amanhã já que parecia que me tinha começado a alimentar novamente.
“Safei-me desta!” – Pensei eu.
O tempo foi passando.
Ainda permanecia horas sem fim no parapeito da janela, mas o desalento foi-se apoderando de mim e comecei a desistir.
“Provavelmente foi apanhado!”
“Nunca mais o vou ver!?”
Certo dia, quase dois meses depois de ver o Fausto a correr á frente do saco de pulgas tentando com que não fosse devorado, aproveitei a saída dos meus donos para trabalhar e começava a minha higiene matinal. Patinha molhadinha a tirar estas remelas dos olhos que tanta aflição me causa.
Quando de repente, ao longe vejo algo a entrar pela janela entreaberta da cozinha.
Desconfiada abeiro-me do objecto e acabo por me inebriar pelo aroma que emanava, era um rosa, uma rosa vermelha. Subo para o parapeito da janela, tentar perceber quem teria lançado aquela linda rosa. Mas, não estava ninguém…
-Psssssssssttttttt…
“Mas o que é isto?” – Pensei eu.
-Pssssssssstttttt….
“Outra vez?”
-Yra!
Aquela voz, oh meu Deus dos gatos, jamais me poderia esquecer, era a voz do Fausto.
Procurei por ele por todo o lado!

-Estou aqui em cima!
Os meus olhos seguiram a voz e eis que pendurado no poste, lá estava ele, lindo, sorridente, olhar encantador e para meu espanto com mais uma rosa na boca.
- Mais uma rosa para ti, apanha!
Nervosa apanhei a rosa que carinhosamente me atira.
- Obrigada Fausto.
- Ainda te lembras do meu nome?
- Pergunto-te o mesmo, não te esqueceste de mim, nem do meu nome?
- Não Yra e prova disso são estas duas rosas, uma por cada mês longe de ti.
Corei com tamanho cavalheirismo.
“Não estou habituada a isto!”
Não quis mostrar muito interesse apesar do meu olhar ser denunciador de todo o meu sentimento, de toda a minha alegria por o reencontrar…
-Mas, por onde andaste tu? Nunca mais te vi…

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 -Fui apanhado.

-Como assim?
-O saco de pulgas apanhou-me e deu cabo do meu pêlo, marcou os dentes dele no meu dorso e deixou-me em muito mau estado. Depois de me atacar consegui esconder-me debaixo de um carro e esperei que ele saísse dali.
-A sério, e depois?
-Entretanto oiço uma voz a aproximar-se, seria o dono dele com a trela. Mania estúpida de andarem com os pulguentos sem trela.
-Pois, nunca mais aprendem.
-Depois de lhe meterem a trela ainda lhe deram os parabéns pela tareia que me deu. Depois disso consegui arrastar-me até casa. Os meus donos assim que me viram levaram-me à clinica para me tratarem e apenas me lembro de ter adormecido depois de me espetarem umas agulhas.
-Oh, lamento Fausto!
-Passei duas semanas internado, os meus donos pensavam que me perdiam. Felizmente lá recuperei e no regresso a casa, para evitar outra situação igual, fecharam-me em casa este tempo todo.
-Tanto tempo!
-Desculpa?
-Nada, nada, foi bom assim. Agora estás completamente recuperado.
-Sim é verdade. Aproveitei que deixaram a janela aberta e resolvi saltar para poder ver-te.
-Oh, não digas essas coisas.
-Yra?
-Sim…
-Apenas nos vimos uma vez, mas…
-Siiiimmmm…
-Foi o suficiente para perceber que não quero passar de um mero conhecido, quem sabe amigo teu.
-Então?
-Eu quero mais…
Parou tudo, parecia que o relógio havia estagnado naquele momento e aquelas palavras ainda ecoavam em meus ouvidos.  Era o que eu mais queria ouvir! O meu coração pulava de contentamento e os meus olhos evidenciavam todas essas emoções.
-Yra, eu quero namorar contigo!
Naquele momento, não aguentei mais. Levada pela emoção, desequilibrei-me, acabei prostrada no chão. Ali fiquei sem conseguir reagir.
-Yra, estás aí? Yra….

(continua)

Yra Patinhas Fofas.

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