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Café em Grão

História: Jardim em flor 5ª e última parte

24.10.16

Crie raízes na vida - Marcos Keld.jpg

Entre os dois criou-se uma relação que ultrapassava o simples facto de serem colegas de trabalho. Apesar da idade que os separava, uma bonita amizade nasceu entre os dois e cimentou-se com o passar dos tempos.

Fábio muitas vezes falou de Joana com o Sr. Andrade que o ouvia atentamente. Sabia que mais nada lhe poderia dizer, pois apenas a vida lhe iria ensinar que o amor não carece de sofrimento e dor.
Certo dia, foi-lhes incumbida a tarefa de tratarem dos jardins junto ao bairro social da aldeia.
O Sr. Andrade não gostava muito daquela zona devido a problemas antigos que tinha arranjado por lá e depois sempre que tinha que ir para lá sabia de antemão que iria ter muito trabalho, pois encontrava sempre o jardim em muito mau estado.
Bingo, acertava sempre e desta vez não seria diferente!
Chegaram ao local e encontraram o jardim completamente destruído, esburacado, as roseiras sem rosas, plantas arrancadas!
-Vamos ter aqui muito trabalho Fábio!
-Quem faz isto ao jardim?
-Gente não civilizada… - Atirou o Sr. Andrade.
-Não consigo perceber…
-Terreno agreste este!
-Como? – Perguntou o Fábio!
Mas o velho jardineiro já tinha colocado mão à obra e nem se apercebeu que Fábio o questionara. Ligaram para a junta e pediram uma série de plantas novas, que de resto, como estava dentro do orçamento, encomendaram e autorizaram a entrega para o início da tarde.
O Sr. Andrade estava estranhamente mais feliz naquele dia, dizia que, apesar da tristeza que sentia por ver o jardim completamente destruído, acabava por ser desafiador fazer tudo de novo, era como uma remodelação!
- Ai Sr. Andrade eu ficaria possesso. É inadmissível. Esta gente não merece o carinho com que você trata dos jardins da aldeia!
-Esta gente não? Fábio, não podemos generalizar. Nos outros jardins ninguém ousa sequer calcar e neste se isto acontece não podemos acusar os moradores dos bairros! Não sabemos…
-Oh são todos iguais. Em todos os bairros vê-se a falta de civismo.
-Fábio, não viste quem foi, pois não? Então vá, vamos ver se terminamos isto hoje…
O resto do dia decorreu normalmente, as plantas chegaram e tudo ficou pormenorizadamente arranjado. Com o Sr. Andrade era assim, rigor, muito rigor.
No final do dia, apenas faltava regar, mas como não estavam a contar terminar o trabalho naquele dia, não tinham trazido o sistema de rega e resolveram então ao início da manhã do dia seguinte, voltarem ali para regar e dar um último retoque nalgum outro pormenor que lhes tivesse falhado.
- Até amanhã Sr. Andrade, como sempre um excelente trabalho!
-Feito por nós dois…
-Não diga isso, você não fez tudo sozinho porque também me ajudou.
-Fábio, com tanto que já te ensinei, não eras capaz de o fazer sozinho?
-Não sei…
-Ai rapaz acredita mais em ti!
-Até amanhã.
- Às 9h00 aqui Fábio.
O Sr. Andrade ainda ficou mais um pouco a olhar o jardim, gostava de ficar a admirar os jardins depois do trabalho feito! Mais uma vez, trabalho terminado com sucesso.
No dia seguinte, antes de seguir para o trabalho, Fábio lembrou-se de surpreender o seu supervisor e pelas 8h00 dirigiu-se a sua casa para juntos irem tomar o pequeno-almoço e seguirem para mais um dia de labuta.
- Sr. Andrade? – Chamava o jovem ao bater à porta de casa do velho jardineiro.
Chamou uma, duas, três vezes e nada.
“Será que já saiu para o trabalho?” – Questionou-se!
Bem, teria que tomar o pequeno-almoço sozinho!
Assim que chega perto dos bairros como combinaram no dia anterior, Fábio, apercebe-se de um aparato anormal, imensa gente em roda a um canto do jardim. Nas suas costas uma ambulância que já se fazia ouvir ao longe.
Aproxima-se a passo largo, fura por entre as pessoas e fica estático ao constatar que o Sr. Andrade se encontrava prostrado no chão sem se mexer! De imediato baixou-se junto do amigo…
-Sr. Andrade o que se passou?
-Fábio...
-Sim, o que foi, o que tem?
-Já viste o que fizeram ao nosso jardim? Espreita…
Fábio levantou-se e ficou chocado ao ver o jardim que ainda ontem reconstruiram, completamente destruído!
-Não pode ser! – Gritou ele. – Sr. Andrade…
Mas quando se virou para o velho jardineiro, já se encontrava na maca a caminho da ambulância!
-Eu vou acompanhá-lo. – Disse virado a um dos maqueiros.
- É familiar?
-Não, mas sou…
Nisso o Sr. Andrade a custo atira…
-É meu neto.
Fábio, não verbalizou mais nenhuma palavra com aquele gesto. Emocionado relembrou que não tinha avós, nem paternos nem maternos, já tinham partido. No fundo, o Sr. Andrade para si era como um avô também para além de um amigo com quem desabafou, partilhou e aprendera muita coisa e muito mais teria ainda para aprender!
O Sr. Andrade estava num estado lastimável, tinha saído cedo de casa para poder apreciar um pouco mais a obra feita com tanto carinho naquele jardim que não resistiu à tristeza de ver tudo destruído. Fora acometido de um AVC, um acidente cardiovascular.
Na ambulância Fábio falava sem parar com o Sr. Andrade para o manter ali, acordado, tentava manter uma conversação!
- Ai Sr. Andrade quem teve coragem de fazer isto? Quem?
- Não questiones Fábio! Sabes, às vezes temos de perceber que nem todo o terreno é digno de receber a beleza de uma planta, de uma flor?
-Mas tentamos!
-O nosso mal é esse mesmo Fábio, tentamos vezes sem conta. Lembras-te da história que te contei sobre a Noémia?
Recordas-te da tua Joana…
-Já não gosto dela! – Atira o Fábio.
- Ainda bem. Não vale a pena insistirmos em amar alguém que não nos ama! Não insistas, não te humilhes, não rastejes por amor. Sabes porquê?
- Então Sr. Andrade?
-Porque tal como naquele jardim que tantas vezes insisti em remodelar, como no amor não correspondido pela Noémia, ou no teu pela Joana, não devemos nunca insistir em criar raízes em terreno agreste!
-Pois…
-Porque as raízes mal tempo terão para se agarrar e as plantas secarão, assim como o nosso coração, que fica bem apertado e magoado.
Fábio apercebe-se que o Sr. Andrade está cada vez mais debilitado.
-Mais depressa com a ambulância!
Pega na mão do velho jardineiro que tanto lhe ensinara.
-Gosto muito de si, é como um avô para mim!
Pela face enrugada do jardineiro, escorre uma lágrima!
- Eu também Fábio, nunca tive um filho, um neto, mas a vida meteu-te no meu caminho e hoje sei que a minha herança ficará bem entregue. Serás um excelente jardineiro.
- Com a sua ajuda ainda vou aprender muito mais!
-Estás a ver? Criamos raízes os dois, fortes, em terreno fértil! Percebes agora o que te quis dizer?
-Obrigado Sr. Andrade…
Fábio acabara de perceber o que o seu amigo e confidente lhe queria dizer com aquela frase!
Fez-se silêncio entre os dois, o velho jardineiro fixa o olhar no jovem, mais uma lágrima escorre-lhe pela face que se revelava cansada, fechou os olhos ao mesmo tempo que um último suspiro se ouve. Acabara ali a vida de um grande homem que tanto dera de si a toda uma aldeia, mas principalmente àquele jovem que aprendeu mais num estágio do que em toda uma vida.
Fábio chora desolado. Percebera que o seu amigo morrera. Debruçado sobre o seu rosto, beija-lhe a face e …
-Gosto muito de si, nunca o esquecerei, obrigado por me ter ensinado tanto e por me ter deixado criar raízes em si assim como as criou em mim. Adeus avô!

Os anos passaram, terminado o estágio, ganhou o concurso que abriram para um novo jardineiro e Fábio diariamente lembrou o jardineiro que tanto lhe ensinou. Casou, teve filhos e continuou a cuidar rigorosamente dos jardins daquela aldeia. E sempre que pôde usou a velha máxima que o mesmo lhe ensinara.
“Não queiras criar raízes em terreno agreste!”

Fim

Jardim em Flor 1ª Parte
Jardim em Flor 2ªParte
Jardim em Flor 3ªParte
Jardim em Flor 4ªParte

Carlos

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