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Café em Grão

História: Jardim em flor 3ªparte

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O Sr. Andrade, resignou-se e ao retirar-se da sala apenas conseguiu proferir:
- Sr. Marcos, preciso de descansar, hoje não volto ao jardim! Vou para casa.
- Sr. Andrade não leve tão a peito esta decisão, pense bem e vai perceber que será o melhor para si. Descanse e trate dessa mão! Olhe que o Nelson não estava nada feliz com essa infecção!
- Até amanhã Sr. Marcos.
Para o presidente, o facto do Sr. Andrade se ter despedido com um “até amanhã”, já era um bom sinal, provavelmente iria acabar por entender e aceitar esta nova função!
O jardineiro dirigiu-se a casa e passou o resto do dia deitado na cama! Pela cabeça passaram as imagens de tantos anos à frente dos jardins da aldeia, sentia até o cheiro que emanava de cada uma das flores que cuidou ao longo da vida. Chorou por perceber que o tempo passou e que neste momento nada restou senão a solidão de uma vida que não lhe deu oportunidade de casar e ter filhos. No fundo agora apenas lhe restava duas hipóteses, continuar ali prostrado dia após dia, deprimido ou levantar-se e acatar a proposta que lhe tinha sido feita.
Já tinha tomado a sua decisão.
Adormeceu.
No dia seguinte Fábio apresentou-se no trabalho pelas 8h da manhã.
Perguntou a Orquídea:
- O Sr. Andrade ainda não apareceu?
-Ah, como deves imaginar não é fácil para uma pessoa da idade dele ser substituído?!
- Mas ele não foi substituído! Ele vai supervisionar-me…
-Deixa lá, não nos vai fazer falta…
Orquídea no fundo falava da boca para fora, pois assim que virou costas, uma lágrima escorreu-lhe pelo rosto. A relação deles era de cão e gato, mas no fundo a presença do Sr. Andrade era um hábito adquirido e já começava a sentir a falta dele.
Fábio dirigiu-se aos jardins, mesmo em frente à junta, para dar continuidade ao trabalho deixado a meio no dia anterior pelo jardineiro de sempre. Passavam já das 10h da manhã quando o presidente chega para trabalhar, assim que estaciona o carro apercebe-se de Fábio já a trabalhar e estranha não ver o Sr. Andrade. Estranhou, estava certo de que ele não iria desistir!
Assim que sai do carro consegue ver alguém a espreitar por detrás do coreto que se encontra no meio do jardim!
“Eu sabia que viria!”- Pensou para si mesmo quando se aproximou e se apercebeu que se tratava do velho Andrade.
-Então Sr. Andrade, porque não está à beira do Fábio?
- Você não disse para o supervisionar? Estou a fazê-lo…
-Sr. Andrade, você não percebeu nada! Você pode estar ali com o rapaz, ele precisa da sua ajuda!
- Mas eu não posso fazer nada!
- Nem deve, está com a mão nesse estado, mas pode sempre com a sua experiência dar umas dicas ao Fábio. Ele está a estagiar, tem muito para aprender! E eu tenho a certeza que você tem tanto para lhe ensinar…
Aproximaram-se os dois do Fábio e mal tinham trocado os olhares:
- Fábio, não se podam assim as roseiras!
- Então Sr. Andrade, como costuma fazer?
Naquele instante o presidente apercebeu-se de que ambos tinham entendido a função que lhes havia sido atribuída e afastou-se sorrindo! O Sr. Marcos via no Sr. Andrade um pai, o mesmo que tanta falta lhe fez, daí que não podia aceitar que o velho jardineiro se afastasse.
Os dias foram passando e o estagiário foi ganhando confiança com o Sr. Andrade, ouvindo sempre com muita atenção tudo o que este tinha para lhe dizer e ensinar.
-Sabe Sr. Andrade, você é uma inspiração para mim!
- Oh não digas isso, não faço nada para que digas isso!
-Faz sim, tenho aprendido muito consigo, não me poderia ter calhado melhor estágio.
O Sr. Andrade não quis demonstrar, mas a verdade é que ficou de coração cheio com aquelas palavras! Uma vida de solidão e dedicação às flores do jardim, nunca em toda a sua vida se tinha sentido tão agraciado.

(Continua)

Jardim em flor 1ª parte
Jardim em flor 2ª parte

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