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Café em Grão

História: Jardim em flor 2ªparte

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Enquanto isso, o Sr. Andrade, cheio de dores continuava o seu trabalho, sempre apreciando o resto à sua volta. Para ele era um orgulho ter os jardins sempre bonitos. Recordava muitas vezes a distinção que lhe era dada nas festas de Natal que a junta organizava anualmente. Longe dele pensar portanto o que estaria para acontecer.
Assim que Nelson entrou no gabinete dos recursos humanos da junta, colocou o seu problema em cima da mesa. Orquídea, que estava à frente da secção de pessoal, advertiu:
- Sabe Nelson, afastar o Sr. Andrade dos jardins da aldeia é a mesma coisa que lhe fazer o funeral, não sabe?
- Mas você desconhece o estado da mão dele e o sofrimento que pode advir daí caso não seja feita alguma coisa?
- Temos que falar com o Sr. Marcos. Ele é que preside, ele saberá o que fazer!
Nelson abandonou o gabinete, na esperança que realmente alguma resolução positiva saísse dali. 
A sua parte já havia sido feita.
No dia seguinte o Sr. Andrade teria que regressar de novo aos jardins frente à junta. Levantou-se, voltou a cuidar da mão, calçou a luva e saiu de casa. Assim que deu início ao seu trabalho é interrompido por Orquídea, a dos recursos humanos.
- Sr. Andrade?
O jardineiro reconheceu de imediato aquela voz, para ele estridente e a qual nunca gostava de ouvir fruto de muitos desentendimentos ao longo dos últimos anos. A Orquídea e o Sr. Andrade davam-se como cão e gato desde que ela passou a supervisionar o trabalho dele.
- Sim menina, o que me quer?
- O Sr. Marcos quer falar consigo!
- E o que me quer ele?
- Venha comigo e já vai perceber tudo. – Disse Orquídea num tom juncoso.
Retirando as luvas, acompanha-a em direcção à junta.
- A menina sabe perfeitamente o que ele me quer, não sabe? Já foi falar mal do meu serviço?
Ignorando as palavras dele, perguntou:
-O que se passou com a sua mão?
-Nada…
-Nada? Mas você tem essa mão num estado lastimável!
- Não se passou nada, estou a dizer. – Respondeu irritado.
Depois desta resposta, mantiveram-se os dois em silêncio durante todo o caminho até chegarem ao escritório do presidente.
Bateram à porta!
-Podemos Sr. Marcos?
-Sim claro, entrem!
Raras foram as vezes que o Sr. Andrade fora chamado ao escritório do presidente e assim que entrava naquele espaço imponente ficava maravilhado com o mobiliário e tapetes que o revestiam.
Cumprimentou-o educadamente, mas ficou admirado por ver sentado à mesa um jovem aparentemente com uns 20 anos.
- Sr. Andrade este é o Fábio.
Esticou-lhe o braço para o cumprimentar e sentiu o nervosismo do jovem. 
- Sr. Andrade, muito gosto.
Apesar de nunca ter saído daquela aldeia e a jardinagem ter sempre feito parte da sua vida, o Sr. Andrade gostava muito de ler e conversar com as pessoas que se cruzavam com ele pelas ruas e desde sempre conseguiu passar a imagem de um homem culto e simpático. Afinal um homem que cuidava tão bem das flores, não poderia tratar de outra forma as pessoas que privavam com ele, tirando a Orquídea que só por acaso tinha nome de flor! Costumava dizer, que não entendia porque só as rosas tinham espinhos, pois conhecia uma Orquídea que picava e muito!
- Porque me chamou Sr. Marcos?
- Sr. Andrade o que tem na mão?
- Arre, mas toda a gente vai perguntar-me o mesmo? Dei uma pancada em casa, mas porquê?
- Sr. Andrade, não minta! As pessoas preocupam-se consigo e em troca você quer manter esse seu ar rezingão que tão mal lhe fica?!
O jardineiro devia muito ao presidente da aldeia, sendo ele o único que conseguia acalma-lo nestas situações.
- Desculpe Sr. Marcos, mas isto não é nada demais, não se preocupe.
- O Nelson, da enfermagem do centro de saúde, esteve cá!
O Sr. Andrade fixou o olhar no chão, percebera ali que toda a gente sabia o que se passava. Envergonhado acrescentou:
- Então já sabe o que se passou? Mas por favor Sr. Marcos não me mande embora! Se me tiram as minhas flores, tiram-me tudo. Isto vai passar, a mão já não está tão inchada. Por favor Sr. Marcos!
- Sr. Andrade, você trabalha para esta aldeia há mais de 50 anos! Todos nós lhe devemos muito e seremos eternamente gratos pelo que nos ofereceu ao longo destes últimos anos! O seu talento, a forma como tratou dos jardins que tanta inveja provocou às freguesias vizinhas…
-Vai-me afastar? – Perguntou triste.
- Todos nós temos um respeito enorme pelo senhor!
Levantando-se da cadeira, o Sr. Andrade dirige-se à porta de saída…
- Já percebi tudo, vão afastar-me e até já arranjaram substituto! Vão substituir-me por um catraio? O que sabe ele?
- Sr. Andrade, sente-se aqui novamente! – Disse o presidente num tom irritado e intimidatório.
Acatando a ordem:
- Vocês querem é matar-me!
- Sr. Andrade, da forma como você tem essa mão, não podemos contar com os seus serviços! Tem de perceber que a saúde é um bem maior e você com 80 anos faz ver ainda a muitos de 30 ou 40 que andam por aí a cair aos bocados. Só que assim nesse estado somos obrigados a tomar uma atitude!

- Não precisam de fazer contas, afinal estou reformado, mais fácil fica mandarem-me embora!
- Mas quem disse aqui que o vamos mandar embora?
- Sr. Andrade, a partir de amanhã o Fábio vai trabalhar connosco na manutenção dos jardins! Ele estava à procura de um estágio agora que terminou o curso profissional e apareceu-nos aqui no momento certo. Por isso, quero pedir ao Sr. Andrade que largue as luvas, trate da sua mão enquanto vai supervisionando o Fábio diariamente. 
- Com esta idade passei a cão de guarda?
- Nada disso… - 
Ficava complicado explicar-lhe que passaria a supervisionar o trabalho do estagiário e que assim seria uma forma de não o afastar para sempre do trabalho de uma vida.
- Sr. Andrade, você vai ver diariamente se o jardim está como quer e se não estiver só tem de passar a mensagem ao Fábio e até quem sabe ensinar-lhe alguma coisa! Mas afinal não é você que se entristece por não ter a quem deixar como herança tudo o que você aprendeu ao longo de mais de cinco décadas?
Fez-se silêncio na sala, Orquídea assistia à conversa e apesar da relação conturbada que mantinha com o jardineiro, entendia o que lhe ia na alma. Dirigiu-se então ao estagiário:
- Fábio, vamos assinar o contrato?

(Continua)

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