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Café em Grão

História: Jardim em flor

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Era uma vez, sim porque todas as histórias tem de começar assim, um velho e sábio jardineiro que apesar dos seus 80 anos ainda olhava pelos jardins da pacata aldeia que o viu nascer e crescer!
Ser jardineiro não era de todo o seu sonho, mas era uma arte que passava de geração em geração na família dele e assim viu-se obrigado a seguir as pisadas do seu pai.
A dedicação aos jardins da aldeia era tanta que o homem, conhecido por Sr. Andrade, esquecera-se da sua vida pessoal e via-se agora chegar ao fim dos seus dias sozinho, solteiro e pior, sem um filho para poder ensinar a arte de bem jardinar. Os seus olhos semicerrados pelo peso das rugas denunciavam muita tristeza, mas nem mesmo assim baixava os braços e diariamente todas as flores que embelezavam aqueles jardins tinham a atenção do seu olhar e o toque da sua mão! Tudo tinha que estar perfeito, de resto, tinha sido assim desde sempre, cioso do seu trabalho.
Certo dia, enquanto podava as roseiras do majestoso jardim que ficava de frente à junta de freguesia, num momento de distração deixou-se picar num dos espinhos!
- Fogo, porque não calcei as luvas? – Barafustou.
Cauteloso correu a desinfetar a ferida, hábito frequente do Sr. Andrade, andava sempre com a mala dos primeiros socorros atrás dele!
Os dias foram passando até que se apercebe que a mão inchava e a pequena ferida provocada pela picada não tinha forma de cicatrizar. Preocupado recorre ao centro de saúde em busca de auxílio.
- Ai Sr. Andrade, como é que você tem a mão? – Disse o enfermeiro preocupado,
Toda a gente conhecia o jardineiro da aldeia, havia sido funcionário contratado da junta durante anos e na altura de se reformar foi-lhe dada a hipótese de continuar a zelar pelos jardins da aldeia em troca de uma pequena recompensa. O presidente sabia perfeitamente que a reforma poderia atirar o Sr. Andrade para uma depressão e consequente morte por estar afastado da profissão que tanto prazer lhe dava e depois a solidão em que vivia não iria ajudar.
- Está muito mau? – Perguntou preocupado!
- Sr. Andrade, você não devia estar a trabalhar assim! Tem a mão toda infectada. Vamos receitar-lhe um antibiótico e uma pomada para colocar todos os dias. Só não lhe ligamos a mão, porque temos de deixar apanhar ar.
- Mas eu tenho as luvas! Posso usa-las Nelson – Numa aldeia tão pacata e pequena, quem não conhecia o enfermeiro, também ele nascido e criado naquelas ruas de terra batida. Ali não havia lugar a estatutos, daí o termo doutor ou enfermeiro não fazerem parte do nome de quem estudou anos a fio a arte de cuidar do próximo.
- Sr. Andrade, você não pode trabalhar assim nesse estado, nem idade tem sequer para andar a tratar dos jardins. Vá para casa, tire uns dias só para si. Descanse. Queremos vê-lo daqui a uma semana.
Assustado com a reprimenda que levou, saiu do consultório, com os olhos marejados de lágrimas e deslocou-se à farmácia para aviar a receita.
No dia seguinte, assim que se levantou, tomou o medicamento, passou a pomada pela mão e calçou as luvas do trabalho! Pensou:
“Eu estou bom, tenho de continuar o meu trabalho! Parar é morrer e ainda tenho aquelas ervas daninhas para arrancar junto ao condomínio!”
Assim o fez. Decidido deslocou-se para o lado novo da aldeia onde se situavam os prédios. Haviam sido construídos tinha pouco tempo, dizia-se que eram habitados pelos mais ricos da cidade, os que tinham mais posses portanto!
Cerca das 9h30 da manhã, já o Sr. Andrade trabalhava faz tempo, é avistado ao longe por um homem alto, bem vestido que acabara de sair da garagem do prédio. Sem ser visto aproximou-se do jardineiro para se certificar de que era mesmo ele.
Assim que tirou as dúvidas entrou no carro a arrancou. Era o enfermeiro que o havia tratado no dia anterior, o Nelson.
Perturbado por ver que o jardineiro não tinha acatado as indicações que lhe foram dadas dirigiu-se à junta de freguesia onde pediu para falar com o representante dos recursos humanos! Como só tinha de entrar ao serviço às 10h15, ainda tinha meia hora para poder resolver a situação do Sr. Andrade. Sabia perfeitamente que sozinho não chegaria a lado nenhum e que se não fizesse algo para para-lo, provavelmente a amputação da mão seria o cenário mais provável!

(continua)

Carlos

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