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Café em Grão

Foi à três anos...

20.05.06


Ontem ao deitar-me, o sono teimava em não chegar. Resolvi então pegar num caderno de versos, um caderno que tenho escrito ao longo destes últimos anos, alimentei o gosto através de uma irmã minha, resolvi dar então continuidade ao que ela outrora escreveu!

Sentado na cama, comecei então a folhear aquelas páginas, um pouco de mim em cada uma delas…tristezas…alegrias…paixões!

A certo momento da minha leitura, sinto o meu coração bater mais forte, o meu corpo tremer, sou então levado em pensamento à precisamente três anos atrás…trabalhava eu na altura ainda no meu antigo emprego.

Enquanto lia os versos de tristeza que escrevi na altura, vou relembrando o sorriso que me prendeu, relembro a voz que me paralisava.

O Miguel (nome fictício), tinha vindo trabalhar para a mesma firma onde eu estava, há pouco tempo, desde o inicio que os meus olhos se prenderam com aquele rapaz em corpo de homem… O simples cruzar com ele nos vestuários, no corredor, no refeitório era para mim vergonhoso, pois as pernas ficavam bambas, o meu sorriso estúpido, as palavras atropelavam-se! Assim foi durante uns dois ou três meses…

Um dia estava eu na linha de montagem e apercebo-me que o meu patrão se está a aproximar:

-Gaybriel…

- Sim Sr. Engenheiro…

- Como se tem apercebido, o nível de encomendas baixou nos últimos meses, não pondo em causa o seu desempenho, temos de encontrar uma saída alternativa, não podemos estar a pagar ordenados quando não temos serviço suficiente!

O meu coração pulou forte, assustei-me! A palavra desemprego não me saía da cabeça!

-Entendo Sr. Engenheiro…

-Como as encomendas subiram no sector A, proponho-lhe temporariamente que você passe a integrar aquela equipa até que se justifique o seu regresso…

Não estava para negar, nem podia e lá aceitei então…

-A partir de amanhã, o seu local de trabalho passa a ser então no sector A.

Enquanto o observava a afastar-se de mim, lembrei-me…

-Mas o Miguel trabalha lá…

Como se costuma dizer…caiu-me tudo ao chão!

No dia seguinte bastante nervoso lá me apresentei no referido sector, já conhecia toda a gente, afinal estávamos sempre juntos no refeitório e fazia já seis anos que lá estava empregado…

Dirigi-me ao encarregado, perguntei-lhe o que tinha então que fazer…

-Para já, vais ajudar o Miguel na máquina grande…

Mas será que estavam a gozar com a minha cara? Comecei a tremer, fiquei vermelho….

-Para a máquina grande?

-Sim, não tenha medo, é muito fácil!

Bem, foi então que tudo começou….a aproximação era inevitável!

O que é certo é que o nervoso inicial logo se dissipou, ele foi fantástico comigo e pôs-me logo à vontade…

Enquanto me explicava as funções da máquina eu observava o sorriso dele constantemente! Não é à toa que passados três meses ainda não sabia como trabalhar com ela…

Dia após dia fomos ganhando confiança, as brincadeiras surgiram, conversávamos muito…

Da parte dele tenho a certeza que se estava a criar uma amizade, mas eu... eu estava perdidamente apaixonado pelo Miguel!

Ele à noite era segurança numa discoteca do norte, o que fazia dele um contador de histórias fantástico, todos os dias novas peripécias… Eu sempre o ouvi, sempre lhe dei os bons conselhos, até mesmo quando chegou à minha beira e confessou-me:

-Conheci uma miúda fantástica…

Acreditem, sabia que isto poderia acontecer, mas não me preparei para tal…

Algo magoado, fui-lhe dando os conselhos, fui ouvindo diariamente os passos que ele dava para a conquistar, até que acabei por ser o primeiro a saber que ambos acabaram nos braços um do outro.

Magoei-me imenso…não tive a coragem necessária para dizer a mim mesmo que chegava!

Apaixonei-me por um rapaz que não procurava o mesmo que eu…

Foi a primeira vez que chorei por um homem, foi a primeira vez que senti o quão injusta é a nossa posição.

O tempo foi passando, não me tiravam da beira dele enquanto não aprendesse a lidar sozinho com a máquina, o que nunca mais aconteceu…

Diariamente sofria, o meu sorriso por o ver denunciavam algo mais, as pessoas apercebiam-se da minha tristeza quando ele faltava por algum motivo…

Até que me fartei…

Vim de férias e surgiu a hipótese de começar a trabalhar mais perto de casa.

No meu último dia de trabalho, ele faltou…não me despedi dele!

Foi melhor assim…

Adeus Miguel…

 

Fecho o caderno de versos, por hoje chega…

Um sorriso, hoje completamente ultrapassada esta passagem sorrio…

Saudades? Algumas…

Gaybriel...

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