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Café em Grão

À chuva...


Hoje o dia amanheceu triste, na mesma tristeza anoiteceu! Durante o dia apenas a chuva e o vento como companhia…

No sossego do meu quarto, meio perdido, ora me lanço na cama, ora me levanto para ver se alguém está online para conversar comigo…Não encontro ninguém!

Lá fora a chuva cai sem parar, abro a janela e aprecio a paisagem, o vento que me bate na cara…autêntico dia de Inverno!

Não quero ficar em casa…

Pego nas chaves do carro e saio porta fora! Desço a rua em direcção à praia, a vila está deserta, não se vê ninguém na rua…A chuva, essa continua mas agora mais branda!

Estaciono o carro na praia em frente, no mesmo estacionamento que tantos segredos esconde, por incrível que possa parecer também está vazio! Onde se meteram todos?

Apetece-me sair e passear na areia! Sempre sonhei poder fazer isto, não sozinho, mas dadas as circunstâncias lanço-me na aventura sem a companhia desejada, apenas eu, o vento e a chuva!

Caminho sozinho, olhando no horizonte os inúmeros barcos que aguardam a sua vez para entrar no porto de Leixões, mais perto, um homem solitário segurando uma cana de pesca, tentando a sua sorte! Penso para mim, será apenas por desporto que ele ali está?

Mais ninguém no areal…Com um tempo destes quem mais teria coragem para arriscar? Eu…e aquele pobre pescador!

Sinto o vento, com a sua força tenta empurrar-me para trás, mas teimoso sigo em frente, sem rumo, mas com uma enorme vontade de caminhar. Hoje precisava de sair de casa e respirar…

Sinto um sufoco enorme cá dentro, apetece-me gritar, em casa não o poderia fazer, aqui ninguém me vai ouvir! As lágrimas começam a rolar, misturam-se com a chuva que aos poucos encharcou o meu rosto! Deixo-me levar pelo vento, a certo ponto da minha caminhada resolvo subir os rochedos, escorregadios, com cuidado ultrapasso a árdua tarefa de me aproximar do mar, está bravo hoje!

Comparo o mar bravio, à revolta que me invade, completamente desgastado envergonho-me do que fiz, olho para mim mesmo e penso se alguma vez na vida conseguirei ser um homem de verdade? Errei tanto...

Atribuo as culpas a mim mesmo, os sentimentos são os meus, os actos foram os meus! Ao ponto que cheguei… Tudo quis, tudo sonhei, mas tudo perdi, nada mereci!

Reparo num pequeno charco de água que se formou nas rochas, não gosto da imagem que vejo reflectida, sou eu! Serei mesmo?

Os meus amigos disseram-me que finalmente voltei, deixei de estar aluado, voltei a sorrir, no sábado ficaram contentes por me reverem bem comigo mesmo! É verdade, voltei! Mas e hoje? Deixei-me abater novamente…

Continuo a olhar o meu reflexo, sinto que jamais conseguirei fazer com que alguém olhe para mim do jeito que eu mais quero, sinto que jamais serei capaz de olhar alguém e deixar os meus sentidos apoderarem-se de mim, sei que não deixarei, pois sei, que jamais alguém me dirá o que um dia já fui capaz de dizer…

“-E se eu dissesse que te amo!”

Jamais irei repetir essas palavras, sem que primeiro cheguem perto de mim e me façam sentir especial, amado! Como sei que jamais abrirei o meu coração a ninguém, também sei que dificilmente o terei de dizer!

Que raiva…

Pego numa pequena pedra e lanço-a no charco, fazendo com que a imagem que observo, a minha, desapareça de vez... Afasto-me! Percorro as rochas, agora em direcção à areia! Estou completamente encharcado, o vento traz com ele palavras perdidas no tempo, palavras que tiveram um momento, no mesmo momento que me fizeram vibrar, hoje são apenas isso, palavras, concerteza ditas de coração, mas que hoje apenas servem para perceber que nem tudo o que se ouve, que nem tudo o que o nosso coração sonha ouvir, e ouviu é sinal que as coisas correrão como a gente sonhou!  Sonhar…o sonho acabou mesmo!

Agora, apenas saudades!

Vejo-me obrigado a voltar aos poucos ao mundo real, onde afinal eu sou o Gaybriel, um simples jovem de 26 anos, aquele que um dia gostou de alguém, sonhou, imaginou, acreditou no sonho, mas que se viu obrigado a acordar quando julgava que sonharia eternamente!

As lágrimas secaram, regresso ao carro, mais aliviado! Faz bem chorar…e chorarei as vezes que forem precisas, só assim limparei toda a mágoa que tenho cá dentro! Não que me tenham feito mal, antes sim, porque eu próprio me magoei, apesar que …

…um dia alguém acertou quando disse!

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.!”

                       Antoine de Saint-Exupéry in "O Principezinho".

Já em casa, entro no meu quarto, novamente o sossego, deito-me sobre os cobertores, adormeço… 

O Olhar de Gaybriel...

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