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Café em Grão

33

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Vagueando naquelas recordações anteriormente partilhadas, o quarto que agora virou arrumos de tralhas e que outrora me fez viver momentos muito felizes…

Ainda hoje ouço os teus passos, a correria naquelas escadas de acesso ao quarto, que todos pensávamos não aguentariam tamanho reboliço. Naquele tempo, sobretudo durante as férias da escola, ainda me recordo das gargalhadas, das malandrices, dos jogos, dos segredos em surdina e dos sonhos que partilhámos. Dizíamos acreditando, um dia haveríamos de ser vizinhos, eu padrinho do teu primeiro filho, tu padrinho do meu…Ai se nessa altura adivinhássemos o futuro!
As músicas que cantávamos, as prendas que trocávamos, os passeios até à praia, as brincadeiras na areia… Tantas histórias gravadas ainda em mim!
O sorriso e o abraço no regresso, as lágrimas na partida, ano após ano como um filme, a cena repetia-se.
Aguentava eu a saudade de um ano inteiro sem ti, riscando no calendário os dias que faltavam para voltar a ver-te, para voltarmos a partilhar momentos que hoje apenas são pedaços de memória em mim! Ai tempo, se voltasses atrás!
A forma malandra com que ousavas chamar-me de tio, quando na verdade o era, mas que os dois anos que nos separavam, achavam que éramos irmãos. E éramos…no coração.
Contas feitas, 18 anos é o tempo certo que separam o hoje e estas memórias.
Naquela altura, ficamos seis anos sem nos vermos. O teu ingresso no mercado de trabalho, afastou-nos, fizemo-nos homens, começaste a namorar, saíste de casa, e…
E quando te voltei a ver, há 11 anos atrás, não foi da forma tantas vezes sonhada, outras vezes prometida.
Na altura fomos obrigados a ir ter contigo. Fez-se urgente a viagem. Viraste as nossas vidas do avesso. Apeteceu-me bater-te, sabes! Magoaste-me tanto…
Naquele dia, ao rever-te, procurei em ti as feições de adolescente, encontrei-as, mas falhou o sorriso, a gargalhada, o som da gargalhada…
Foi o nosso último dia.
Despedi-me de ti, com palavras que guardarei para sempre para mim mesmo.
Não me respondeste.
Afinal já não estavas ali, apenas o teu corpo frio e machucado, exibido como triunfo de um acidente estúpido que nos ceifou para sempre o teu sorriso, o teu amor…
E é com amor que diariamente te recordo, aquele amor de irmãos que nos uniu e sempre unirá.
Hoje farias 33 anos.
Parabéns meu amigo, sobrinho e irmão.

Carlos

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