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Café em Grão

1 de Novembro - Dia de todos os hipócritas

01.11.15

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Não querendo desprezar a verdade do dia em causa, que honra todos os santos, mártires e cristãos heróicos celebrados ao longo do ano. Não quero também de forma alguma que se sintam ofendidas as pessoas que acreditam nisto, que semanalmente vão ao cemitério acender uma vela, depositar um ramo de flores, que vivem e agem como se realmente ali continuasse a estar o seu ente-querido, quando na verdade muitas vezes apenas o pó ali permanece…
Mas muitas outras pessoas, sim, eu chamo de hipócritas, pois fingem neste dia ter crenças, sentimentos que na verdade nunca tiveram, senão vejamos:

Aquela viúva, que eu conheço tão bem, enterrou o marido já lá vão duas dezenas de anos, semanalmente rumava ao cemitério, lavava a campa, enfeitava com as melhores flores, iluminava o lugar num ritual ensinado e copiado vezes sem conta ao longo de séculos.
Rezava e afirmava, não quero mais homem nenhum, o meu marido foi o único e à memória dele devo respeito. Ninguém lhe perguntava nada, gostava de o partilhar… Sempre acenamos com a cabeça, como que compreendendo a dor daquela pobre senhora que vestia o preto em sinónimo de luto. Fazendo chuva ou sol, aquela pobre enlutada, passava o dia de todos os santos, ali, junto à campa do marido.
Um dia, surgiram os rumores que o seu coração fora arrebatado por uma nova paixão, nada contra, não fosse o amor eterno que mesmo depois do marido morto, apregoou por aí aos sete ventos! Deixou a cidade em que sempre viveu, deixou para trás os filhos, já casados e foi ser ou tentar ser feliz noutra cidade com um novo companheiro. Uma aventura que deve ter durado uns três anos, durante os quais pouco ou nada quis saber da campa do falecido marido. Mas afinal, depois de ser novamente feliz, não continuaria a dever respeito ao anterior! Ela achava que não…
Quando a aventura terminou, regressou a casa, à cidade de sempre, à companhia dos filhos e pasme-se aos rituais de sempre. Voltou a visitar o falecido semanalmente, com as melhores flores, voltou a ilumina-lo, a passar o dia 1 de novembro todos os anos desde então junto à campa como se continuasse a ser a eterna viúva.
Mas isto é ou não ser hipócrita?

Outros há…

Passam o ano sem se deslocarem ao cemitério, mas neste dia, porque querem ver e serem vistos, lá estão ao lado dos túmulos. As melhores flores, velas enormes, arranjos em forma de coração… E durante o ano? Flores de plástico ou declinam em terceiros a responsabilidade de manter a campa apresentável. Hipocrisia, mais uma vez!

E eu?

Bem, este ano devo ter posto três vezes os pés no cemitério, no funeral de um amigo e depois mais duas vezes para por velas nas campas de família. Se hoje eu me deslocasse ao cemitério não me sentiria mal, porque o que se faz hoje, fi-lo durante o ano também. Mas não vou, não quero ser visto, nem ver a incoerência de muita gente que neste dia se veste de fato e gravata apenas para se pavonearem sem dar o verdadeiro valor ao dia em causa.
Quando me apetece, lembro-me de quem cá não está, tenho por hábito num cantinho do escritório acender uma vela por eles. Nem sempre preciso ir ao cemitério para mostrar a falta que me fazem.

Carlos

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